22 julho, 2013

há dias em que nem sei


Ando a caminhar com pés de lã, a tentar passar muito suavemente sem que dêem por mim nem pelo peso de cadáveres de monstros que carrego nos ombros, não os matei, seria incapaz disso, mas eles sentiam-se fartos de mim e enforcaram-se numa viga do telhado de madeira do meu quarto, uma visão algo macabra, lembro-me que  cheguei a casa e ela estava invulgarmente sossegada, era noite cerrada e eu pousei as minhas coisas na mesa da cozinha, pousei os pedaços de coração que carreguei durante o dia, pousei-os para poder finalmente sentar-me no sofá e olhar para o tecto e pensar no quão lixada a vida é, mas como não ouvi um único barulho abri a porta do quarto, devagar, e ela rangeu levemente e eu pensei, por segundos, como estava assustada e como isto era tudo errado e como algo iria sair da escuridão que engolia o meu quarto, liguei a luz e lá estavam eles, os bancos de madeira de três pernas tombados no chão e os seus pés ou tentáculos ou pedaços de escuridão apontavam para o chão e ainda baloiçavam levementer, e eu pensei que a culpa era minha, fui eu que os matei e eles estavam mortos por minha causa, e derramei lágrimas feitas de pó e dor e amargura e sal, porque eles sempre me tinham feito companhia, sempre me tinham amado por quem eu sou e eu matei-os porque não aguentaram o buraco negro em que me fui tornando, e nesse momento deslizei para o chão e adormeci desconsolada no chão de madeira, e mal o dia raiou e eu acordei peguei neles com todo o carinho que consegui e meti-os aos ombros e aí os carrego, até me conseguir livrar deles sem sentir um peso na alma enorme.

7 comentários:

  1. Foi algo maravilhoso de ler mesmo que só tu saibas o que sentes, um beijo.

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  2. O teu blog está neste momento inserido numa sondagem e a concorrer numa rubrica chamada "Especial Blogs - A Distinção". Esta rubrica pretende dar voz aqueles que estão por trás do ecrã do computador e eleger os preferidos dos leitores da blogosfera. Para votar basta aceder a http://oburguessocial.blogspot.pt

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  3. Sofia, com todo o respeito, eu também sei o que é ser habitado por monstros, e seria fácil de mais se eles se finassem assim. Um monstro não se suicida. Isso está completamente fora das suas possibilidades. Um monstro só se vai quando tu deixas de fugir, deixas que ele, depois de tanta perseguição, finalmente te apanhe; e então olhas para ele nos olhos, e dás-lhe um beijo, ele dá-te um beijo... FIM
    (Mas o texto está muito bom)*

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  4. é que ainda são muitos por acaso.. são 10.




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